SAF do Fluminense completa um ano sem acordo e negociações seguem em compasso de espera
O processo para transformar o futebol do Fluminense em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) completa um ano nesta terça-feira (8) sem uma definição. A Lazuli Partners apresentou sua proposta inicial ao Conselho Deliberativo em 8 de setembro de 2025, mas, desde então, as partes seguem discutindo mudanças nos termos do negócio. A expectativa é que uma oferta reformulada possa ser apresentada ainda em 2026.
O principal ponto em discussão é o valor do aporte inicial previsto para o clube. Além da quantia, Fluminense e investidores também analisam questões relacionadas à governança e às cláusulas do acordo de acionistas, mecanismos considerados importantes para estabelecer as garantias do clube em uma eventual venda da SAF.
O processo perdeu ritmo após a eleição presidencial do Fluminense, que acabou interrompendo temporariamente as tratativas. A publicação do balanço financeiro referente a 2025 também era aguardada para que as conversas avançassem.
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A avaliação de pessoas ligadas ao mercado é de que a negociação ainda pode levar algumas semanas para apresentar uma definição mais concreta. Internamente, existe a possibilidade de uma nova proposta chegar ao clube ainda neste ano, dando início a uma discussão mais efetiva sobre a operação.
Situação financeira aumenta pressão
Enquanto a negociação da SAF permanece parada, o Fluminense precisa administrar uma situação financeira que exige atenção. O clube vem mantendo os pagamentos do elenco em dia, embora tenham ocorrido episódios pontuais de atraso de poucos dias nos direitos de imagem.
No mercado de transferências, a estratégia também passou a ser marcada pelo parcelamento das contratações. A diretoria busca manter o fluxo financeiro sob controle por meio da negociação de prazos e do relacionamento com os credores.
O tamanho da dívida é um dos principais argumentos para a discussão sobre a SAF. Em agosto, o presidente Mattheus Montenegro explicou a situação financeira do clube e reconheceu que o cenário ainda está longe de representar uma redução efetiva do passivo.
Acho que sim [estão enxugando gelo]. A gente conseguiu equacionar a dívida, mas não reduzir. Em 2019, era R$ 860 milhões. Hoje é R$ 1,05 bilhão. Os valores são corrigidos pela Selic, então deveria estar em R$ 1,5 bilhão. O RCE foi fundamental para a gente porque sem ele tinha penhoras todo dia. Com ele, conseguimos fôlego para planejar. A dívida tributária está parcelada pelo prazo de 10 anos e a cível no RCE. Temos ainda acordos extrajudiciais por fora. É uma situação difícil. Tivemos a aprovação das contas no Conselho e perguntaram como seria o Fluminense do futuro. Hoje, conseguimos pagar as contas a partir do momento que vendemos jogadores
O Regime Centralizado de Execuções (RCE) permite ao clube organizar o pagamento de determinadas dívidas e reduzir o risco de bloqueios e penhoras. Apesar do mecanismo ter proporcionado maior previsibilidade financeira, os juros elevados dificultam a redução do passivo.
Outro problema é a dependência das receitas extraordinárias. O orçamento tricolor para 2026 previa aproximadamente R$ 200 milhões em vendas de jogadores, mas o clube ficou distante da meta.
A principal negociação foi a saída de Bernal, durante a Copa do Mundo, por US$ 12 milhões. Como o Fluminense possuía 60% dos direitos econômicos do volante, o valor destinado ao clube ficou em US$ 7,2 milhões.
Nesse cenário, o desempenho esportivo ganhou ainda mais peso. Uma eventual conquista da Libertadores aumentaria significativamente as receitas previstas para a temporada, com uma premiação estimada em cerca de US$ 27,3 milhões acima do orçamento que considerava apenas a classificação às quartas de final.
Premiação do Mundial ajudou a equilibrar as contas
A situação atual também precisa ser analisada à luz do resultado financeiro de 2025. O Fluminense encerrou o ano com receita superior a R$ 1 bilhão, impulsionada principalmente pela campanha na Copa do Mundo de Clubes, na qual o Tricolor chegou à semifinal.
A participação no torneio gerou aproximadamente R$ 331 milhões. Segundo Mattheus Montenegro, parte significativa desse dinheiro foi direcionada para despesas e compromissos financeiros do clube.
Muito se fala da premiação da Copa do Mundo. Daquele valor, nós recebemos R$ 290 milhões líquido. Você desconta disso R$ 72 milhões de foram de premiação para os jogadores. Outros R$ 20 milhões foi pagamento de voos ao longo do torneio. R$ 50 milhões usamos para pagar acordos judiciais. Ainda fizemos um leilão de R$ 10 milhões no RCE para quitar dívida com credores que dessem desconto, mas ninguém se interessou porque estamos pagando em dia as parcelas. Esse valor ficou no tribunal para quitar parcelas. Sobrou R$ 120 milhões a mais de receita, que foi usada em folha salarial e contratação de jogadores.
Mesmo com a entrada extraordinária de recursos, o clube continua convivendo com um passivo elevado e com a necessidade de gerar receitas recorrentes para manter suas obrigações.
No fim de agosto, o Fluminense ainda recebeu uma advertência de grau mínimo da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANSREF) por atrasos relacionados a dívidas com clubes, funcionários e autoridades públicas. O clube reconheceu os problemas e informou que os casos já haviam sido encaminhados.
É nesse cenário que a negociação da SAF permanece no radar. Para o Fluminense, a operação representa a possibilidade de receber um aporte capaz de aliviar a pressão financeira e oferecer maior capacidade de investimento. Antes disso, porém, o clube busca condições consideradas mais favoráveis na proposta que poderá voltar à mesa ainda em 2026.
