A histórica e multidimensional relação entre o Fluminense e o Continente Africano
Enquanto a maioria dos torcedores do Fluminense acompanha os jogos do clube no Maracanã ou pela televisão, um jovem de 18 anos vive a paixão tricolor a milhares de quilômetros de distância. Em Maiduguri, cidade do nordeste da Nigéria marcada por graves problemas de segurança pública, Mohammed Kale sonha em um dia deixar a África para vestir a camisa do Fluminense em Xerém.
Conhecido nas redes sociais como “Marcelo Júnior”, em homenagem ao ídolo tricolor Marcelo, o nigeriano viralizou recentemente após ter sua história relembrada pelo ge.com. A diferença de quatro horas no fuso horário dificulta acompanhar as partidas ao vivo, mas isso não impede Kale de seguir o clube. Ele assiste aos melhores momentos pela internet, coleciona camisas oficiais adquiridas com dificuldade e alimenta o desejo de construir uma carreira no futebol brasileiro.

A história chamou a atenção da torcida tricolor e ultrapassou 40 mil curtidas no TikTok. Mas o caso está longe de ser isolado. Na prática, ele representa mais um capítulo de uma relação construída pelo Fluminense com o continente africano ao longo de mais de seis décadas, marcada por excursões históricas, intercâmbios esportivos, formação de atletas e iniciativas voltadas à valorização da herança negra.
Você conhece nosso canal no Youtube? Clique e se inscreva! Siga também no Instagram
As raízes históricas e as excursões de integração (1961–1980)
A presença do Fluminense no cenário esportivo africano acompanha a própria expansão internacional do futebol brasileiro no pós-guerra. Em uma época em que excursões internacionais serviam como instrumento de aproximação cultural entre países, o clube carioca foi um dos pioneiros em estabelecer laços com diferentes nações do continente.
O primeiro confronto do Fluminense contra uma equipe africana aconteceu em 26 de maio de 1961. Durante uma excursão internacional, a equipe comandada por Zezé Moreira enfrentou o Al Ahly no recém-inaugurado Estádio Internacional do Cairo, no Egito. Diante de cerca de 18 mil espectadores, o Tricolor venceu por 2 a 1, com gols de Waldo e Telê Santana. Saleh Selim marcou para os egípcios.

A partida ficou marcada como o primeiro compromisso oficial do clube em solo africano. Anos depois, o Fluminense voltaria ao continente para outros confrontos históricos, incluindo um empate diante da seleção da Argélia, no Estádio 5 de Julho, em Argel. Na ocasião, Ricardo Gomes marcou para o Tricolor, enquanto Rabah Madjer, que posteriormente se tornaria um dos maiores nomes da história do futebol argelino, também deixou sua marca.
Doze anos após a estreia no continente, o Fluminense realizou uma das mais importantes excursões internacionais de sua história. Entre os dias 1º e 24 de junho de 1973, o clube percorreu Angola, Tanzânia, Zâmbia, Moçambique e Lesotho em uma sequência de nove partidas.
O desempenho foi expressivo: oito vitórias e um empate, com 33 gols marcados e apenas nove sofridos. Dionísio terminou a excursão como artilheiro, com 14 gols, enquanto Manfrini contribuiu com outros nove.
Mais do que os resultados, a viagem teve impacto direto na construção da equipe que conquistaria o Campeonato Carioca daquele ano. Em sua obra “Carioca de 1973: Uma Glória Tricolor Semeada em Solo Negro Africano”, o historiador Eduardo Coelho destaca que a excursão serviu como um importante teste de resistência física e fortalecimento coletivo para o elenco. O jornalista Roberto Sander, no prefácio da obra, aponta a experiência vivida na África como um dos fatores que contribuíram para a histórica conquista estadual sobre o Flamengo de Zico e Zagallo.
A ligação do Fluminense com a Nigéria, país natal de Mohammed Kale, ganhou seu capítulo mais emblemático em abril de 1978.
Durante uma excursão pelo país africano, o clube protagonizou um episódio que entrou para a história ao contar com a participação de Pelé, recém-aposentado dos gramados e presente na região para compromissos institucionais.
No primeiro compromisso da viagem, em Lagos, o Fluminense enfrentou a própria Seleção da Nigéria, em uma partida na qual Pelé atuou temporariamente como adversário do Tricolor.
Poucos dias depois, em 26 de abril, na cidade de Kaduna, a pressão popular e o interesse das autoridades locais fizeram com que o Rei do Futebol deixasse de ser apenas um convidado de honra. Pelé entrou em campo vestindo a camisa branca número 10 do Fluminense durante o primeiro tempo do confronto diante do Racca Rovers, então campeão nigeriano.

Diante de aproximadamente 30 mil torcedores, o Fluminense venceu por 2 a 1, com gols de Marinho Chagas e Arturzinho. O ex-lateral-direito e auxiliar-técnico Edevaldo relembrou o episódio como uma experiência inesquecível, simbolizando a força do futebol como ferramenta de aproximação entre povos e culturas.
Décadas antes de um jovem nigeriano sonhar em jogar em Xerém, o Fluminense já construía em solo africano uma história que ajudaria a transformar o clube em uma referência esportiva para torcedores e atletas de diferentes países do continente.
O intercâmbio moderno e a presença do Fluminense no continente africano
A relação construída pelo Fluminense com a África ao longo do século XX ganhou novos contornos nos últimos anos. O que antes era marcado principalmente por excursões internacionais passou a incluir intercâmbios esportivos, projetos de formação de atletas e parcerias institucionais voltadas ao desenvolvimento do futebol.
Um exemplo dessa aproximação aconteceu com a visita do Orlando Pirates, um dos clubes mais tradicionais da África do Sul, às instalações do Fluminense. A delegação sul-africana conheceu a sede das Laranjeiras e o centro de treinamento de Xerém, elogiando a estrutura oferecida pelo clube para a formação de jovens atletas.

Em campo, os visitantes enfrentaram a equipe reserva tricolor, comandada pelo auxiliar técnico Valber, em um amistoso voltado ao desenvolvimento dos jogadores da base. O Orlando Pirates venceu por 3 a 1 em uma partida marcada pela intensidade física e pelo intercâmbio de experiências entre os dois clubes.
Além de receber equipes africanas no Brasil, o Fluminense também ampliou sua atuação diretamente no continente. Em setembro de 2025, o clube promoveu uma escolinha internacional de futebol em Luanda, capital de Angola, voltada para crianças e adolescentes. 
Realizada no Estádio dos Coqueiros, a iniciativa integrou as comemorações pelos 50 anos da Independência de Angola e foi desenvolvida em parceria com a agência angolana Mbondo Sports & Entertainment, presidida por Yuri dos Santos.
A comitiva tricolor foi liderada pelo Professor Pinheiro, profissional com mais de duas décadas de atuação nas categorias de base do clube. Durante as atividades, jovens atletas angolanos tiveram contato com a metodologia de formação desenvolvida em Xerém, considerada uma das mais reconhecidas do futebol brasileiro.
Mais do que uma ação pontual, o projeto abriu caminho para futuras iniciativas de observação e desenvolvimento de talentos, consolidando Angola como um mercado estratégico para a expansão das atividades do Fluminense no continente africano.

Essa aproximação também se refletiu no ambiente comercial. A First Class, patrocinadora das categorias de base do Fluminense, escolheu Angola para iniciar seu processo de internacionalização, inaugurando uma unidade no país africano.
Segundo o sócio-fundador da empresa, André Pivetti, o investimento reforça a conexão entre a marca e o projeto de formação desenvolvido em Xerém, além de fortalecer os laços econômicos e institucionais construídos entre o Fluminense e o mercado angolano.
Xerém como fronteira de atração e formação de talentos
A reputação internacional do Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras, em Xerém, consolidou o Fluminense como um dos principais destinos para jovens atletas africanos que buscam projeção no futebol sul-americano e global. O clube estruturou uma área de captação voltada ao mapeamento de jovens promessas internacionais.
O pioneirismo dessa captação é mostrado por uma história recente, Metinho, jovem nascido na República Democrática do Congo que chegou ao Brasil como refugiado de guerra. Desenvolvido nas divisões de base do Fluminense, o meio-campista destacou-se pela qualidade técnica antes de ser negociado com o Grupo City, simbolizando o potencial humanitário e desportivo da metodologia de Xerém.
Em setembro de 2023, o Fluminense anunciou a contratação do atacante ganês Abraham Baffor, de 18 anos, para integrar o elenco Sub-20. Monitorado pela rede de observadores do clube, Baffor assinou contrato em Xerém e celebrou a oportunidade como a realização de um sonho de infância. O jovem integrou-se ao elenco então comandado pelo técnico Ricardo Resende para a disputa da Copa Rio e da Copa do Brasil da categoria.
Mais recentemente, em 30 de janeiro de 2026, o Fluminense reforçou o seu elenco de juniores com a contratação de Kgomotso Madiba, promessa do futebol sul-africano, com vínculo estabelecido até 2029. Nascido em Pretória, o meia-atacante de 18 anos pertencia à Stars of Africa Football Academy, onde estreou no time principal aos 15 anos. Madiba, que defende a seleção Sub-20 de seu país desde os 17 anos e sagrou-se campeão da Copa Africana de Nações da categoria em 2025, passou a trabalhar sob o comando do técnico Felipe Canavan, manifestando grande gratidão pela oportunidade de evoluir no futebol brasileiro.

Desconstrução histórica e afirmação da identidade negra
Paralelamente às frentes desportivas e comerciais, o Fluminense empreendeu um profundo esforço institucional para revisar a sua própria historiografia, combatendo estigmas e resgatando a centralidade da população negra e da herança africana na construção de sua identidade social.
Por décadas, o termo “pó de arroz” foi associado por torcidas rivais a uma suposta política elitista e racista de exclusão, baseada na narrativa difundida pelo jornalista Mário Filho em sua clássica obra O Negro no Futebol Brasileiro. Segundo a versão mitificada, o atleta negro Carlos Alberto, ao transferir-se do América-RJ para o Fluminense em 1914, teria sido forçado a maquiar o rosto com pó de arroz para ocultar a sua cor de pele e tentar se passar por branco.
Através de pesquisas e campanhas de conscientização, o Fluminense esclareceu a falsidade dessa interpretação. O uso do produto por Carlos Alberto decorria de um hábito estético e dermatológico comum entre homens da época para acalmar a pele após o barbear, prática que ele já adotava em seu clube anterior. A zombaria originou-se da torcida do América como provocação clubística pela perda de seu antigo atleta, e não de uma imposição institucional do Fluminense. Ao resgatar a verdade, o clube ressignificou o apelido, transformando o que outrora fora uma ofensa racial em um dos símbolos mais festivos de sua arquibancada.
Para consolidar o Fluminense como o “Time de Todos”, a FluTV produziu a websérie Herdeiros de Chico Guanabara, dirigida e roteirizada por Daniel Cohen e Leandro Carvalho. Dividida em 12 episódios mensais lançados a partir do Dia da Consciência Negra em novembro de 2021, a produção resgata a figura histórica de Chico Guanabara, homem negro, capoeirista e tricolor, considerado o primeiro torcedor de futebol do Brasil. A série utiliza a trajetória de Chico para debater racismo estrutural, a profissionalização do esporte e a importância de ídolos negros na história tricolor, como Waldo, Didi, Paulo César Caju e o Casal 20 (Assis e Washington).
A relevância de Chico Guanabara foi chancelada em fevereiro de 2023, quando o Fluminense estampou no peito de seu uniforme profissional um patch comemorativo desenhado pelo artista Marcelo Ment para o clássico contra o Vasco da Gama no Maracanã. A ação integrou-se à campanha institucional “Time de Todos”, voltada ao combate ao racismo, homofobia, misoginia e antissemitismo.

A atuação do Fluminense projeta-se ainda no acolhimento de populações vulneráveis provenientes do continente africano. O clube é um dos apoiadores institucionais da etapa fluminense da Copa dos Refugiados, evento organizado pela ONG África do Coração em parceria com agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e o Sesc RJ.
Mais de seis décadas depois da primeira partida disputada em solo africano, o Fluminense segue encontrando no continente um espaço de intercâmbio, identificação e oportunidades. Das excursões históricas dos anos 1960 e 1970 aos projetos de formação em Angola, passando pela chegada de jovens atletas africanos a Xerém e pelas iniciativas de valorização da herança negra, o clube construiu uma relação que ultrapassa as quatro linhas.
É nesse contexto que a história de Mohammed Kale ganha significado. O sonho do jovem nigeriano de vestir a camisa tricolor não surgiu apenas pela admiração a Marcelo ou pelos vídeos que assiste pela internet. Ele é reflexo de uma conexão construída ao longo de gerações, capaz de atravessar oceanos, idiomas e fronteiras. Em um continente a milhares de quilômetros das Laranjeiras, o Fluminense continua despertando identificação, pertencimento e esperança, exatamente como faz há mais de 60 anos.
