O Hulk, o abismo e a última esperança: a lógica

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Amigos, ninguém me tira da cabeça a imagem acachapante da novela que se arrasta entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Hoje, as manchetes, com aquela frieza típica de quem não tem sangue nas veias, anunciam que o capítulo final foi escrito, que o Hulk fica no Atlético, que o Fluminense está fora do páreo. Será? Indago no auge dos mais de 50 anos acompanhando esses folhetins de sangue e lágrima.

Eu vos digo, com a humildade de quem já viu a verdade entrar no estádio vaiada e sair aplaudida: tem muito jogo ainda. O óbvio ululante, que escapa aos matemáticos de algibeira mas grita aos ouvidos de quem conhece a alma das multidões, é que o dinheiro não é apenas papel pintado. É sangue, é suor, é o pânico do cofre vazio e da alma em frangalhos.

Vamos aos fatos, nus e crus como uma personagem de Ibsen. Fala-se em um salário de nababo, na casa dos três milhões. Façam as contas, se tiverem tal ousadia! O Atlético Mineiro, para manter o jogador por lá, essa entidade física que atende pelo nome de Hulk, teria que desembolsar, ao longo de 2026, algo superior a 60 milhões de reais. É uma fortuna capaz de comprar a dignidade de um país pequeno!

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Explico a minha simples matemática: fala-se em salário na casa de três milhões. Some-se o que todo mundo finge esquecer — encargos, fundo de garantia, impostos, férias, décimo-terceiro, esse rosário burocrático que ninguém reza, mas todo clube paga — e chegamos à cifra monstruosa, quase bíblica: mais de sessenta milhões num único ano para sustentar uma entidade que, por ironia, talvez nem seja tratada como titular absoluto — e não será.

E para quê? Pergunto eu! Para manter um homem que está, visivelmente, esquartejado pela dúvida e pela insatisfação. O jogador já disse, ou insinuou com a sutileza de um elefante na sala de estar, que o projeto esportivo do Galo lhe cheira a formol, a aposentadoria, a pijama de flanela.

Mais trágico ainda: o técnico do Atlético, esse tal de Sampaoli, olha para o Hulk não como um titã, mas como uma peça de mobília antiga que não cabe na decoração. O homem não quer usá-lo! É a humilhação suprema! Imaginem vocês, o Hulk, com aqueles traços indeléveis na história do futebol, tal qual esculturas esculpidas por Michelângelo, sentado no banco, roendo as unhas, enquanto o clube queima 60 milhões na fogueira da vaidade.

O jogador é profissional? É, claro que é. Mas a vida como ela é nos ensina que a motivação de um homem rejeitado é a de um funcionário público em véspera de feriado. Ele cumpre o protocolo, bate o cartão, mas a alma… ah, a alma já voou pela janela! Ele já avisou que 2027 não o verá em Minas. O divórcio está anunciado, falta apenas assinar os papéis.

E aqui reside o drama, a encruzilhada shakespeariana do Galo. Chegamos a julho e o Hulk, livre como um pássaro, assina com quem quiser — leia-se, com o Fluminense — e sai de graça no fim do ano. O Atlético terá pago 60 milhões para ver seu ídolo partir sem deixar um tostão no caixa, apenas a saudade e o prejuízo.

Portanto, não me venham com meias verdades. A lógica, essa senhora implacável, sugere o contrário do que dizem os boatos. Ou o Atlético libera agora e economiza essa fortuna obscena, ou abraça o cadáver financeiro até dezembro.

Por isso eu digo, trêmulo de emoção: ainda tem samba. O destino é caprichoso e a paixão tricolor é uma força gravitacional. O Hulk não cabe num banco de reservas; ele precisa de um palco, de uma tragédia, de uma glória. E as Laranjeiras, meus amigos, as Laranjeiras o esperam como um último trem na madrugada: ou ele embarca e salva a noite, ou passa vazio e deixa só o frio.

O Fluminense não quer apenas um jogador; o Fluminense quer o impossível, e o impossível, às vezes, veste a camisa 7 e atende pela alcunha de super-herói.

Em tempo: sim, sou fã do Hulk; sim, quero vê-lo no Flu e, por fim; sim, acho que ele tem muita lenha para queimar ainda.

ST

Washington de Assis


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