Marcos Seixas, o preparador físico do Flu, falou com o ST – A programação, como é feito e quais os resultados esperados…

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Uma das principais preocupações desta paralisação é o preparo físico dos atletas e de como eles conseguirão manter e, até mesmo, ganhar massa muscular e condicionamento aeróbio ao longo deste período. E, pensando nisso, a comissão técnica tricolor, desenvolveu um programa de treinamentos, para que a galera possa seguir de casa. Nossa reportagem conversou com o preparador físico, Marcos Seixas, que detalhou todo o processo e acompanhamentos dos atletas. Confira:

– Uma satisfação falar com a galera do Saudações Tricolores, um canal que eu aprecio e admiro muito. A gente definiu a programação dos atletas quando a gente estava próximo do final das férias. A gente sabia que eles tinham que se reapresentar e começar os treinamentos seja de maneira presencial ou não. Como a gente fez a leitura e o Fluminense teve uma postura muito crítica, e muito correta, na minha opinião, de respeitar o momento que todo o país vem passando com a pandemia e respeitar principalmente os órgãos competentes, que são as pessoas mais capacitadas para analisar o momento ou não de se retornar os treinamentos presenciais, a gente da preparação física e da psicologia elaborou as duas primeiras semanas de treinamentos e começamos a montar esse esquema todo para que os atletas conseguissem treinar em casa.

Seixas explica que a comissão preparou os vídeos de treinamentos antes mesmo da paralisação ser efetivada, pensando naquilo que poderia ocorrer. A preocupação era o clube não perder tempo e se preparar para qualquer eventualidade, que acabou acontecendo:

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– Então, na hora que a gente produziu os vídeos de exercício, lá no início, já prevemos essa situação. Fizemos de forma que pudessem ser feitos em casa, por todos os atletas. Tanto para aqueles que tem uma mini academia em casa ou aqueles que tem uma estrutura bem menor, aqueles que moram em casas grandes, com jardins, e aqueles que moram em apartamentos menores. Então a gente fez uma variedade de exercícios a gente gravou quase 200 vídeos de exercícios individuais em que o implemento que você utilizava era muito pequeno. Era um pequeno peso, um banco, um disco plástico, um elástico, uma simples bola e alguns cones. A gente, já pensando nessa dificuldade que alguns atletas teriam, a gente gravou exercícios extremamente simples e que você usaria e poderia fazer em pequenos espaços, muito das vezes utilizando o próprio corpo como sobrecarga. Então, muitos exercícios funcionais, muito exercícios livres. Essa foi a nossa ideia, pensar de maneira coletiva, de maneira a ser bem democrata em espaço e condições de material. É claro que a gente na hora de iniciar essas atividades a gente disponibilizou para os atletas um kit com alguns materiais que seriam utilizados nesses treinamentos. Então isso facilitou bastante na hora deles realizarem essas atividades.

Sobre quais exercícios poderão ser feitos e de que forma:

– Ficamos com um grande leque de atividades a serem feitas. Então, todos os exercícios que a gente vai poder, e que a gente vem realizando com os atletas hoje, são aqueles exercícios mais funcionais, mais localizados, que não dependem de máquinas. São exercícios com pesos livres, exercícios de isometria, exercícios para membros superiores que você utilize elásticos e inferiores com mini bands. Enfim, exercícios em que você se utiliza de movimentos naturais: passadas, saltos e arremessos. Todos esses tipos de exercícios, que são do grupo neuromuscular, são os que a gente consegue realizar em casa sem empecilho nenhum, são os mesmos que a gente realiza na academia do clube, no espaço livre que a gente tem, com bastante barras, pesos livres, alteres, dumbells e anilhas. Os exercícios que a gente não consegue realizar são os exercícios que se utilizam das máquinas, do maquinário que o Fluminense dispõe na academia dele, esses a gente não tem como realizar. Algumas máquinas de agachamento, as máquinas novas que a gente adquiriu há pouco tempo, que simulam muitos exercícios de corrida e de potência. O atleta fica amarrado com um colete e faz arrancadas, faz saltos, esses tipos de exercícios a gente só consegue realmente com as máquinas lá do clube. E a gente não vai conseguir fazer com eles em casa. A gente vai conseguir fazer pequenos exercícios técnicos, que a gente realiza exercícios de 5 a 10 metros numa área de 30 metros quadrados. E são exercícios físicos mas que tem a presença da bola que tem um componente de agilidade, de coordenação, resistência muscular localizada associada a alguns fundamentos do futebol. Esse exercício a gente também vai conseguir realizar, não de maneira tão específica quanto a gente faz no Fluminense, porque o atleta faz isso no campo e de chuteiras. E muitos desses atletas não vão fazer esses exercícios no gramado porque eles não tem disponível um gramado dentro de casa. E claro, as atividades coletivas, em grandes áreas, os pequenos e grandes jogos, essas atividades a gente não vai ter como fazer nesse momentos de quarentena e isolamento. Então essas atividades vão ser as que a gente vai mais sentir falta nesse momento.

Esse preparo e condicionamento são para minimizar uma eventual perda muscular e de preparo físico, ou se percebe algum ganho?

– Nesse momento a gente já está numa fase que não é só de evitar que eles percam massa muscular e condicionamento. A gente já está numa rotina de treinamentos em que a gente está conseguindo incremento de massa muscular e de condição física dos atletas. Então a gente espera que eles se apresentem com uma boa condição física. É claro que a gente entende que eles vêm de um período de 45 dias – juntando as primeiras 2 semanas da quarentena, mais um mês de férias que eles tiveram. Eles vêm de um período grande de “inatividade”. Mas quando a gente começou 10 dias atrás esse nosso processo de treinamento virtual, nosso objetivo é ganho de massa muscular com essas atividades mesmo que de maneira residencial, e em ganho do componente aeróbico com esses treinamentos que estamos fazendo. Então a gente acredita que eles vão se apresentar numa boa condição física dentro desses parâmetros neuromusculares e cardiorrespiratórios, depois desse período que a gente tiver de treinamento virtual. É difícil mensurar isso em percentuais até porque isso varia de caso a caso e até por essa ser a nossa primeira experiência de treinamento à distância tão profissional quanto vem sendo. Nas férias têm um encaminhamento de atividades, uma coisa não comprometida e também não presencial nesse modelo virtual. Agora com essa presença obrigatória deles nas sessões de treinamento virtual é a nossa primeira experiência então a gente não tem um parâmetro para conseguir mensurar esses valores de condicionamento físico com que eles vão se apresentar.

E o kit preparado para eles. Como foi pensado?

– O kit foi pensado exatamente em função desses exercícios e desses protocolos que a gente montou. A gente viu na gama de exercícios que a gente filmou qual era a necessidade; um elástico, duas anilhas, dois pesos, um banquinho, meia dúzia de cones, uma bola, um cinto de tração. Enfim, a gente viu ali qual era a necessidade de material para a realização dessas atividades, montou o kit e disponibilizamos esse kit para os atletas.

Preparo individualizado, cada um com sua rotina, ou um planejamento mais coletivo, com todos na mesma linha de treinamento?

– Inicialmente a carga de exercícios foi igual para todos, a gente começou de maneira bem moderada para um processo de adaptação. A partir do momento que a gente foi evoluindo com os treinamentos a gente foi vendo a necessidade de diferenciar determinados atletas por diversos motivos e razões. Os atletas respondem questionários e a gente tem uma acompanhamento diário da resposta deles às cargas de treinamento que eles estão sendo submetidos. Eles respondem diariamente, assim que acordam, um questionário em que se é avaliado desde motivação e satisfação que o treinamento gerou nele, passando pelo stress mental que eles vêm vivendo ao longo dessa situação inusitada, que ninguém nunca viveu, o estágio de sono deles, de recuperação, as dores musculares e localizadas que eles têm. Então eles respondem tudo isso, é um questionário obrigatório que eles necessitam responder. Esse questionário é transmitido para todos os integrantes da comissão técnica desde os médicos, passando pelos fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, preparadores físicos, fisiologistas, auxiliares técnicos, treinador, todos têm acesso à essas respostas. A gente filtra as que fogem um pouco do padrão e que são necessárias de uma observação maior. A partir daí, a gente direciona e altera as cargas para determinado atleta em função de alguma resposta que ele teve nesse questionário.

E o preparo físico dos profissionais do Flu. Você, os demais preparadores, o André Carvalho, preparador de goleiros…

– Somos, também, por natureza profissionais de muita atividade física. Eu posso falar pela minha experiência, que eu tenho tentado fazer exercícios todos os dias, os protocolos que a gente monta pra mim são uma motivação a mais. No nosso modelo de treino virtual a gente executa o treino para os atletas verem, eles já tem o vídeo do treinamento que vai ser realizado. A gente encaminha na noite anterior o vídeo do treino que a gente vai aplicar no dia seguinte e, de manhã, e o link da reunião virtual. A gente encaminha isso na véspera para eles se prepararem com materiais e espaço que eles vão precisar. Então a gente no dia, na hora da sessão de treinamento, não executa o treinamento com eles mas a gente fica comandando, vigiando e fiscalizando porque são mais de 30 atletas para a gente corrigir e extrair deles o máximo. Então na minha questão pessoal eu procuro a tarde, ou quando eu tenho um tempo livre, ou antes da sessão de treinamento deles fazer o meu protocolo de treino em casa, com o que eu tenho de equipamento. Preparadores físicos sempre têm uma mala de equipamentos pessoal na casa. Procuro sempre dar minhas corridas nos espaços que são permitidos. Respeitando todo esse distanciamento e regras, eu procuro me exercitar no que eu tenho também de disponibilidade na minha casa e na casa que eu to passando esse período de quarentena. Pros treinadores de goleiros essa dificuldade é maior, eles têm que fazer esse reforço muscular porque quando eles retornarem vão ter que chutar 100, 200 bolas por treinamento e eles realmente vão sentir bastante essa diferença.

Sobre a diferença entre treinar em casa e os treinamentos no CT, de forma individualizada, sem coletivos, sem bola, sem grupos…

– Seria um pouco diferente do que a gente vem fazendo hoje. Eu diria que a gente hoje consegue fazer em casa em torno de 50 à 70 por cento das atividades que a gente faria no CT, com esse distanciamento. A gente lá teria principalmente a questão do gramado, o controle melhor das atividades porque a gente teria os equipamentos de GPS, de monitoramento e de frequência cardíaca, esses dados todos a gente teria em tempo real. Então, principalmente na questão do controle do treinamento, se a gente tivesse treinando no CT com o distanciamento, a gente teria muito mais dados à nosso favor. Com relação ao leque de atividades a gente também ganharia um pouco mais de atividades porque a gente teria as máquinas da academia, higienizadas de maneira adequada e seguindo os protocolos a gente poderia utilizar, isso nos daria uma avaliação maior de treinamentos neuromusculares. E na parte de campo a gente teria, mesmo utilizando essas regras de distanciamento, também, uma gama de atividades maior, um processo técnico melhor de passes, de finalizações, de treinamentos táticos e técnicos específicos por setor ou por posição que seria um pouco maior. Mas eu entendo perfeitamente que hoje a gente não tem essa condição, o clube e os profissionais do clube entendem que não é o momento disso, que isso, por mais que houvesse o distanciamento, isso nos traria um risco nesse momento necessário que vem passando todo o país. A gente ainda acha que você ter um pouco menos de atividades à sua disposição vale muito mais a pena nesse momento que toda a sociedade vem passando e que vale a pena pagar esse preço de ficar recluso mas com essas atividades que a gente vem fazendo.

Sobre o retorno do futebol, e das atividades cotidianas…

– A gente precisa esperar mais alguns dias, mais algumas semanas para ver como que vai ficar principalmente como vai ficar o nosso estado do Rio de Janeiro com a quantidade de casos, óbitos e pessoas que estão contraindo a doença para a gente ter uma previsão. É muito difícil, se nem os cientistas conseguem fazer uma previsão imagina a gente que não é especialista vai conseguir fazer uma previsão. Mas, mesmo assim, eu acredito que após o nosso retorno ao nosso CT, que não sei quando se dará, eu espero que se dê o mais breve possível, porém que esse mais breve possível seja dentro das melhores condições adequadas para que todo mundo. E quando isso ocorrer, eu imagino que a gente tenha que ter pelo menos duas semanas no mínimo de adaptação nos gramados e de treinamentos sem restrições. Se a gente for se apresentar no CT quando for liberado e tiver ainda restrições de contato, necessidades de distanciamento e um impedimento de se realizar atividades coletivas com o grupo todo, eu ainda acho que esse tempo vai ter que ser prorrogado. Então, quando eu digo duas semanas de atividades sem restrições nenhuma, em que você possa desenvolver normalmente as atividades coletivas de futebol e a gente vinha desempenhando antes. E aí sim, os inícios das partidas de futebol. Esse é o meu pensamento e que é o que comunga todos do clube com essa visão e essa ideia. A partir daí a gente vai poder começar a pensar em jogos de futebol.

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ST


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