Do menino da Lapa ao ícone nacional: por que Fluminense x Corinthians virou o Clássico Silvio Santos

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A história do futebol brasileiro é, essencialmente, uma narrativa de mitos, ídolos e construções culturais que transcendem as quatro linhas do gramado. Entre as figuras que moldaram a percepção pública do esporte no século XX, poucas possuem a relevância de Senor Abravanel, o Silvio Santos. O falecimento do maior comunicador do país, em 17 de agosto de 2024, oficializou a existência de uma nova nomenclatura no panteão dos grandes confrontos do país: o Clássico Silvio Santos, disputado entre Fluminense e Corinthians. 

O termo ‘Clássico Silvio Santos’ não surgiu de uma campanha de marketing planejada ao longo de anos, mas de uma dessas coincidências que o destino reserva apenas aos gigantes. No exato dia em que o Brasil se despedia de Silvio Santos, o calendário do Campeonato Brasileiro de 2024 reservava o embate entre Fluminense e Corinthians no Maracanã. A morte do apresentador nas primeiras horas daquele sábado transformou a partida em um evento de catarse coletiva.

Fluminense e Corinthians homenageiam Silvio Santos com faixa antes de duelo (Foto: Thiago Ribeiro/AGIF)

A legitimação do nome ocorreu de forma orgânica e institucional simultaneamente. Enquanto as redes sociais eram inundadas por memórias do apresentador de ambos os times, o perfil oficial do Brasileirão e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) batizaram o duelo com o nome do comunicador. O apelido consolidou-se pela ideia de que, independentemente do resultado, Silvio Santos sairia vitorioso, pois as duas instituições representavam as duas fases cruciais de sua vida: a juventude formativa no Rio de Janeiro e a consolidação empresarial em São Paulo.

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Para o Fluminense, o clássico carrega um simbolismo de primazia emocional. Silvio Santos era, antes de tudo, um homem do Rio, um tricolor de coração que, embora tenha adotado o Corinthians como seu “segundo time” ou time de carinho em São Paulo, nunca escondeu que suas primeiras referências de ídolos e de paixão clubística nasceram nas Laranjeiras.

O Fluminense da Lapa e a formação de Senor Abravanel

Senor Abravanel nasceu em 12 de dezembro de 1930, na Travessa dos Arcos, no bairro da Lapa, Rio de Janeiro. A Lapa dos anos 30 e 40 era o epicentro da vida boêmia, cultural e social da então capital da República. Foi nesse ambiente, respirando o ar de uma cidade que fervilhava entre o samba e o futebol, que o jovem Senor desenvolveu sua afeição pelo Fluminense Football Club.

A escolha pelo Fluminense não era meramente estética; o clube representava, naquelas décadas, o ápice da organização e do prestígio no esporte brasileiro. O Tricolor das Laranjeiras era o time das elites, mas também o time que encantava as massas pela sofisticação técnica de seu jogo. Para um jovem de origem humilde que trabalhava como camelô e já demonstrava uma percepção aguda sobre o que era o “espetáculo”, o Fluminense era a maior vitrine de gala do futebol nacional.

A influência da infância no Rio de Janeiro foi determinante para que Silvio Santos mantivesse, mesmo décadas após se mudar para São Paulo em 1954, uma memória vívida do esquadrão tricolor. 

A era de ouro do Fluminense (1930-1940)

O período em que Silvio Santos era um jovem torcedor nas arquibancadas do Rio coincide com uma das fases mais vitoriosas e tecnicamente exuberantes da história do Fluminense. O clube dominou o carioca com um tricampeonato (1936-1937-1938) e conquistas subsequentes em 1940 e 1941.

Os ídolos que Silvio Santos admirava eram artistas do gramado. Entre eles, destacavam-se Tim, Hércules e Romeu Pellicciari. Esses jogadores eram ícones culturais da época, comparáveis às estrelas do rádio que Silvio tanto ouvia.

Foto: Divulgação FFC

A relação de Silvio com essa fase do clube é a de um torcedor que viu o futebol se profissionalizar e o Fluminense se tornar o estandarte dessa nova era.

O Corinthians e o “transplante” de alma

A mudança de Silvio Santos para São Paulo em 1954 marcou o início de sua ascensão como o maior empresário da comunicação no Brasil. Para conquistar o público paulista, Silvio entendeu que precisava falar a língua do povo local, e nenhuma língua é mais fluida em São Paulo do que a do Corinthians.

A ligação com o Corinthians, no entanto, não foi apenas uma estratégia de marketing; tornou-se um vínculo afetivo real, embora de natureza diferente de sua paixão tricolor. Enquanto o Fluminense era o clube da memória e da infância, o Corinthians era o clube da vida adulta, da convivência diária e da conexão com a sua audiência.

O grande divisor de águas nessa relação foi a marchinha de carnaval “Transplante de Corinthiano”, popularmente conhecida como “Coração Corinthiano”, gravada por Silvio em 1968. A canção, composta por Manoel Ferreira, Ruth Amaral e Gentil Junior, capturou o espírito de uma época. O Corinthians vivia um jejum de títulos de quase 23 anos e, simultaneamente, o mundo presenciava o primeiro transplante de coração humano. A letra “Doutor, eu não me engano, meu coração é corintiano” tornou-se um hino de resiliência.

Marchinha de Carnaval (com Silvio Santos) – Transplante Corinthiano

O SBT como “emissora corintiana” e a relação comercial

Ao longo das décadas, o SBT consolidou no imaginário popular a imagem de uma emissora com forte apelo corintiano. Isso se deveu não apenas às preferências declaradas de muitos de seus profissionais, mas também às parcerias comerciais estratégicas. A Tele Sena, uma das joias da coroa do Grupo Silvio Santos, foi patrocinadora do Corinthians em momentos cruciais, como na conquista da Copa do Brasil de 2009 e novamente em 2023.

A torcida do Corinthians sempre enxergou Silvio Santos como um dos seus, um “sofredor” que, apesar do sucesso, mantinha a simplicidade e a alegria que são marcas registradas do clube. Para o corintiano, Silvio era a voz que validava seu amor pelo clube nos domingos de auditório.

Legitimação do clássico

A ideia de que Silvio Santos tinha dois clubes, o Fluminense no Rio e o Corinthians em São Paulo, nunca foi vista como uma traição ou contradição, mas como símbolo de união nacional. Em um país marcado por rivalidades, Silvio unia os Arcos da Lapa ao Parque São Jorge.

Essa dualidade ajudou a legitimar o nome Clássico Silvio Santos. Não se tratava de um torcedor “vira-folha”, mas de uma personalidade tão vasta que uma única camisa não era capaz de contê-la. O Rio de Janeiro e São Paulo, as duas forças motrizes do Brasil, estavam representados dentro de uma mesma figura. Ao batizar Fluminense x Corinthians com seu nome, o futebol brasileiro reconheceu que Silvio era um patrimônio que pertencia a ambos, mas cuja raiz emocional estava inegavelmente plantada nas Laranjeiras.

O Clássico Silvio Santos que ocorrerá nesta quarta-feira (01), é a celebração de um legado de alegria, resiliência e amor ao futebol.


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