Condenados à Glória – Washington de Assis
Amigos, passamos.
E como padecemos hoje do mal, quase irremediável, de ceticismo e opiniões pautadas e fundamentadas na mais rasa e absoluta falta de compreensão do que é o futebol e, pior ainda, do que é o Fluminense, eis que me deparo com a turba dos idiotas da objetividade. Basta compulsar a internet para perceber que estão todos lá, a postos, armados com suas análises frias, seus números inertes e sua miopia congênita, decretando que este futebol limitado de ontem chegou ao seu máximo. Estamos, de acordo com os tolos — esses mesmos que agem como líderes de seitas modernas —, condenados irremediavelmente à morte na semifinal. Pois, em verdade vos digo: Ignorem-os. Deixem que fiquem com o ceticismo cinzento dos covardes. Eu prefiro o delírio lírico. Não sou cego ao primeiro tempo medonho, mastigado e sofrível, mas o Fluminense jamais coube nas quatro linhas da lógica rasteira. Eu fico com o Sobrenatural de Almeida. Fico com a santidade milagrosa de Fábio, com o passe cirúrgico de Hulk e o raio imponderável de Canobbio. Porque, meus amigos, basta percorrer os séculos que o óbvio ululante saltará aos olhos: o Fluminense não joga apenas futebol; o Fluminense cumpre um destino trágico e glorioso antes de invadir o Olimpo.
Não cabemos em um relatório burocrático. Jamais. Nascemos predestinados a escrever epopeias. A memória dos descrentes é sempre curta e ingrata – porque engaja. Preferem se ater a uma única noite fria, de um primeiro tempo enfadonho, do que lembrar. Será que se esqueceram de “ontem”? Esqueceram-se daquela noite em que o Beira-Rio rugia triunfante após um empate enganoso no Maracanã, prontos para o nosso velório, e nós arrancamos a história pela goela do destino? Ou de quando estivemos no purgatório em La Paternal, com um homem a menos, até que Samuel Xavier acertou um petardo no ângulo?
Você conhece nosso canal no Youtube? Clique e se inscreva! Siga também no Instagram
E para quem acha que a mística é coisa recente, basta olhar o passado que nos forjou. Lembrem-se de 2005, quando o abismo se abria diante de um Volta Redonda atrevido e o cucuruto salvador de Antônio Carlos, no apagar das luzes, fez o Maracanã explodir em redenção pura. Ou voltem a 1995, à apoteose do Fla-Flu imortal, com o bailar desconcertante de Aílton e a barriga bendita de Renato Gaúcho peitando a eternidade. Poderia ficar aqui, lembrando e me deliciando com os idos de nossa história. Mas, para basear meu ponto de vista, é o suficiente.
Dirão que sou um ingênuo, um otimista doentio, um doido varrido que enxerga virtude no caos. Pois que digam! Quando tudo parece consumado, quando a razão pagã nos empurra para a cova e os especialistas decretam a nossa extrema-unção, o Fluminense se agiganta na dor. É o clássico roteiro de cinema: o mocinho apanha, sangra, agoniza durante duas horas de puro martírio, para triunfar nos últimos trinta segundos de fita. O Fluminense é isso. É o triunfo da paixão sobre a lógica. Estamos mais vivos do que nunca.
Vamos sangrar diante do próximo adversário. É fácil prever jogos duríssimos em solo de plástico ou na pirambeira em que o oxigênio é luxo. Pouco importa. Será assim, porque o Fluminense não é para quem acha isso ou aquilo. O Fluminense é para quem acredita.
Boa semana,
Washington de Assis
