Entre a Palmatória e a Esperança: Um olhar otimista e realista sobre o Fluminense

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por Fernando Félix

Existe uma velha máxima de mercado que diz que “o cliente tem sempre razão”. Pessoalmente, prefiro encarar isso apenas como um pressuposto inicial, porque, convenhamos, o cliente nem sempre está certo — sobretudo nos dias de hoje, em que muitos se sentem tentados a levar vantagem sempre que possível. Traçando um paralelo com o futebol, muitos aplicam esse paradigma aos estádios e defendem que a torcida também tem sempre razão.

Para avaliarmos essa máxima aplicada dessa forma, precisamos ponderar alguns pontos. O primeiro, e o mais importante, é que a torcida não é uma entidade única, um bloco homogêneo. Pelo contrário: trata-se de um macro-organismo composto por entes distintos e absolutamente individuais. É uma simbiose que, de tão imperfeita, atinge um grau de perfeição que somente uma torcida é capaz de criar. Trata-se de uma equação complexa e diversa, na qual o torcedor “A” concorda com “B” no assunto “Y”, ao mesmo tempo em que “B” discorda de “A” no assunto “X”.

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Ou seja, elos são formados e desfeitos ao sabor dos temas que se dispõem a analisar. Teorias de botequim nascem na velocidade de um apito final e, para muitos, a primeira opinião é a que basta, devendo ser defendida até as últimas consequências. É como se mudar de ideia — ou mesmo refinar e modular uma opinião já proferida — fosse uma ferida mortal no orgulho, especialmente em meio ao caos das redes sociais. Por tudo isso, é irreal tratar a torcida como dona de uma única razão universal.

Basta observar o cenário atual: para muitos, cobrar virou o único sinônimo de torcer. Ou melhor, estabeleceu-se a regra de que quem não cobra, não torce. Criou-se a falsa premissa de que aquele que não vai às redes sociais esbravejar contra o que desaprova, supostamente não ama o clube. E ai de quem ousar discordar da opinião proferida! A reação é imediata: um ataque de manada, um verdadeiro enxame de perfis alinhados e prontos para atacar quem pensa diferente. Falar bem ou tecer elogios a uma situação, a um jogador ou a um dirigente, então… Deus me livre! Hoje em dia, o simples ato de elogiar é tratado como uma prova incontroversa de que o sujeito não é tricolor. Rapidamente, ele é rotulado como torcedor de jogador, fã de cartola ou de qualquer outra coisa — menos torcedor do Fluminense.

Na visão dessa parcela da torcida, você tem que ser ácido e cobrar o tempo todo. O resultado é que, para essas pessoas, o simples ato de torcer se transformou em algo tortuoso. Onde foi que se perdeu a capacidade de regozijar-se com os bons momentos?

Vale lembrar que disputamos um Mundial em 2025, onde vivemos o nosso ápice. Depois, com a chegada do Zubeldía, o time recuperou a competitividade e o padrão tático. Hoje, praticamos o que muitos especialistas consideram um dos melhores e mais vistosos futebóis do Brasil. Ainda assim, muitos preferem seguir nessa estrada espinhosa de apenas apontar o dedo, acreditando fielmente que apoiar virou sinônimo de ser áspero.

Não falo que não concordo que precisamos de reforços. Buscar reforços, álias, é como andar para frente, respirar ou fazer a digestão: trata-se de um movimento parassimpatolítico. Tem que ser algo constante e eficiente, pois, do contrário, esse organismo simplesmente não sobrevive.

No entanto, deve ser muito difícil viver nas redes sociais diariamente apenas para cobrar, assumindo o papel de grande bastião do planejamento e de fiscal da opinião alheia. Afinal, para essa parcela da torcida, ai de quem quiser “curtir” o Fluminense de uma forma diferente.

O ponto é que estamos em um estágio muito melhor do que muitos querem acreditar

No jogo contra o Palmeiras, em que saímos derrotados, mesmo com o Ganso jogando de falso 9, o Fluminense merecia um resultado completamente diferente. Era para termos saído de lá com os três pontos, não fosse a atuação extraordinária de Carlos Miguel e a falta de capricho em alguns lances — como o gol que o Hércules perdeu, inacreditavelmente, em cima da linha da pequena área.

Nesse jogo, o Fluminense atuou com o que muitos consideraram um time misto, mas que rendeu muito bem contra um dos maiores elencos do Brasil atual, um forte candidato a todos os títulos que vai disputar. Ora, se o time jogou com uma formação mista e manteve a competitividade lá em cima, isso não seria capaz de traduzir a qualidade do elenco?

Ou seja, se trocam-se as peças consideradas principais e o time continua com um alto nível de produção, capaz de ser merecedor de uma vitória diante do todo-poderoso Palmeiras, aos meus olhos, isso mostra um elenco extremamente competitivo e com boas opções para diversas posições.

Talvez eu seja um romântico da velha guarda, que procure entender o futebol de uma outra forma, ou até mesmo um eterno otimista. Mas o fato de o Fluminense precisar de um goleador e também de reforços para a zaga não me faz sair por aí xingando e gritando aos quatro ventos que estamos diante da pior diretoria do mundo, ou ainda que vamos deixar de brigar por coisas grandes por conta disso. Muito pelo contrário.

Eu vejo o elenco do Fluminense hoje muito mais equilibrado e com muito mais opções em posições cruciais para tocar essa temporada de uma forma vitoriosa e com chances reais de ganhar títulos. E se a gente está dessa forma agora, praticando esse bom futebol e provando por “A + B” que o elenco tem qualidade, é porque alguma coisa no trabalho vem sendo bem feita.

É um trabalho infalível? Não. Tem erros? Muitos, e é preciso melhorar sempre. Mas, entre ficar em uma estrada cheia de espinhos, remoendo a cada vez que o clube agir de uma forma da qual eu discordo — o que é muito tortuoso —, prefiro ficar com a esperança que o nosso hino carrega e com a certeza de que este vai ser um ano de comemorações.

Já trouxemos o Guilherme Arana, um dos melhores laterais-esquerdos em atividade; já trouxemos o Jemmes, zagueiro revelação que vem mostrando muito valor; além do Savarino, que é um dos melhores meias em atividade no futebol sul-americano. Eu prefiro acreditar que coisas boas virão, que outros jogadores chegarão e que a gente vai ter um ano incrível. Obviamente que eu quero a chegada de mais gente, mas isso não me impede de ver a realidade. E, para mim, a realidade traz muito mais esperança e expectativas por coisas boas do que essa postura de ficar com a palmatória do mundo nas redes sociais.

Finalizo esse pensamento com a certeza de que muitos vão me cancelar por ter a coragem de ir de encontro à essa onda de pessimismo que assola nosso clube há algum tempo. Mas tenho certeza que alguns que vão ler esse texto irão, ao menos, levar algumas ponderações para frente. E, por mim, tudo bem você discordar. Faz parte.

Boa sexta,

Fernando Félix

PS: Grato ao amigo Washington de Assis pelo espaço aqui na sua coluna


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