Mago Angioni: O que os olhos não viram, o coração tricolor sentiu
Amigos tricolores, vivemos uma era asfixiante, envenenada pela vaidade, pelo egoísmo e pela neurose do dia a dia corrido. Em um universo tão raso, alguém que ousa se posicionar de forma diferente, que destoa da histeria coletiva, corre o risco de parecer um ser deslocado, um homem retrógrado ou irremediavelmente fora do seu tempo. No entanto, Paulo Angioni, o nosso Mago, subvertia essa lógica. Por certo, o Fluminense não se explica pela fria razão das planilhas, e ele menos ainda. O que Angioni nos oferecia, em meio a todo esse caos, era a sua maior e mais revolucionária virtude: a vocação de ser, antes e acima de tudo, humano.
Os juízes das redes sociais e aqueles que se autoproclamam donos da razão digital — figuras que, no auge de sua superficialidade, confundem seguidores com uma seita cega — sempre confundiram a sua serenidade com morosidade. Olhavam para a sua calma e enxergavam omissão; fitavam sua mansidão e acusavam impotência, como se ele fosse um espectador incapaz de agir. Tolos! A tranquilidade de Angioni era a força inabalável dos justos. Ele era um apaziguador por natureza. Não por fraqueza, mas porque seus conceitos e virtudes eram tão colossais que a conciliação nascia como consequência inevitável do seu modo superior de entender a vida. Não por acaso, ostentou uma das carreiras mais longevas do nosso futebol, sobrevivendo por décadas na selva predatória dos clubes de primeiríssima linha. Prova disso: o mundo do futebol se despediu, com inúmeras mensagens de carinho e reconhecimento, de um de seus personagens mais queridos e respeitados.
Lembro, com uma dor aguda no coração, de uma fotografia em que ele aparecia com os olhos baixos, fitando a tela de um celular. Aqueles mesmos carrascos virtuais tentaram viralizar a imagem, espalhando a mentira torpe de que ele cochilava durante um jogo do Fluminense. Foi um ataque covarde, um bote brutal e leviano contra um homem que, há bem pouco tempo, havia colocado a própria reputação em jogo para salvar o clube de um destino cruel e sombrio que se desenhava na segunda metade do ano de 2018.
Você conhece nosso canal no Youtube? Clique e se inscreva! Siga também no Instagram
E foi exatamente nessa época que tivémos a ousadia de contrariar esses pseudossábios de internet e escrever a plenos pulmões sobre o Mago Angioni. Fomos apedrejados por influenciadores recém-saídos do cueiro, donos de opiniões rasas, que desprezavam a discrição de quem preferia o sacrifício ao espetáculo. Aos olhos dessa multidão febril, a presença dele era passiva. Mas, enquanto a turba histérica gritava por engajamento, Angioni continuava trabalhando. Continuava fazendo, na mais absoluta e sagrada discrição, exatamente aquilo que nasceu para fazer.
A reconstrução deste clube carrega as suas impressões digitais, gravadas a ferro e fogo na árdua reinvenção daquele elenco de 2019. Atravessávamos as trevas de uma conturbação política sem precedentes, com a antecipação das eleições incendiando as alamedas das Laranjeiras. Os bastidores fervilhavam em estado de ebulição, e as incertezas eram as únicas certezas no asfixiante dia a dia tricolor. Manter um time de futebol blindado, suando e trabalhando enquanto o chão cedia sob os pés de todos, definitivamente não era missão para marinheiro de primeira viagem. Mesmo os comandantes mais tarimbados deixariam o caldo entornar, assistindo à condução desmoronar no meio da tempestade. Naquela época, eu não conseguia conceber — e a história assim se provou — um nome mais perfeito para sustentar a organização mínima do Fluminense. Foi a sua trincheira silenciosa que nos impediu de naufragar.
Foi essa resistência que nos permitiu não apenas sobreviver ao purgatório de 2019, mas também plantar as sementes da verdadeira reconstrução que ganharia corpo sob a gestão Mário Bittencourt. E como a mediocridade é sempre ruidosa e implacável, o próprio Mário foi, por incontáveis vezes, levianamente acusado de manter o Mago no cargo por puro compadrio ou afeto pessoal. Pobres mortais. Eram prisioneiros de uma cegueira tão patológica e desprovidos de tamanha inteligência que, parando para pensar, a culpa talvez nem seja inteiramente deles. A verdade, nua e crua, é que lhes faltava envergadura de alma para enxergar a dimensão colossal de Paulo Angioni.
Foi ele o arquiteto sutil que forjou a “família” unida e letal capaz de nos dar a Glória Eterna da Libertadores de 2023 e a Recopa de 2024. E quando o céu escureceu de novo em 2024, quando o clube flertou macabramente com a zona do rebaixamento e muitos decretaram o nosso fim, quem estava lá? Ele. Operando uma reformulação profunda no elenco, distante dos holofotes e fora do alcance dos olhares aflitos da torcida. Apaziguando o vestiário, trazendo confiança e serenidade novamente em um momento conturbado, sem sombra de dúvidas, foi peça mestra da engrenagem que reverteu o nosso trágico curso e nos manteve na primeira divisão.
E o que dizer de 2025? A assombrosa campanha no Mundial de Clubes — a melhor de um clube fora do eixo europeu. Quando o mundo inteiro sequer cogitava que passaríamos de fase, lá estava a mão do Mago, sustentando os bastidores daquele épico.
Dizem os ditados populares que “o que os olhos não veem, o coração não sente”. No entanto, quando se trata de Paulo Angioni, essa velha máxima cai por terra, porque os olhos – muitas vezes míopes, outras tantas tapados por opiniões rasas e raivosas – podiam não enxergar o trabalho silencioso que ele cravava nas paredes, mas os nossos corações sentiram as emoções indescritíveis das maiores conquistas da nossa história.
A mim, só resta agradecer pelos anos dedicados ao nosso Fluminense. Agradecer por nos emprestar sua sabedoria e gentileza. Agradecer pelos ensinamentos sutis e tão profundos que levarei pelo resto de minha vida.
Descanse em paz, Mago. Os seus ensimantos vitoriosos então gravados, de forma indelevel, na nossa história.
Com muito carinho,
Washington de Assis
