A grandeza de ser tricolor não é para todos; mas um grande tricolor pode emergir de qualquer chão
Amigos, o Fluminense faz falta. E não me venham com a patética noção de tempo, de calendário, de pré-temporada. A ausência do Tricolor em campo é um buraco na alma, um vácuo na paisagem da cidade. É a saudade ululante que a Sapucaí sente do samba; que o boteco sente do bamba; que o mestre-sala sente da carne trêmula de sua amada porta-bandeira. É a fissura do grande amor.
Ser tricolor, já o disse e o repito à exaustão, não é para qualquer um. E que os medíocres de plantão não ousem me interpretar mal, com a sordidez que lhes é peculiar. Dirão que é uma questão de berço, de casta ou de sobrenome — como muitos já o fizeram ao longo dos séculos. No entanto, estamos ao lado dos fatos. E contra os fatos, meus nobres, não há argumentos. E o fato incomoda.
Primeiro, é condição sine qua non entendermos que sim, é verdade. Nem todo mundo nasceu para a glória de carregar essas três cores no peito, e isso é a raiz dessa confusão mundana e vil. Uma confusão deveras rasa, é bem verdade, mas que embriaga os olhos dos mais incrédulos. No entanto, o que estes jamais entenderão é que, se nem todos nascem para ser tricolores, um tricolor, meus caros, pode brotar de qualquer chão. Pode emergir do mais profundo e anônimo povo. A prova viva, a prova imortal, atende por um nome de herói de folhetim: Chico Guanabara.
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Imaginem as Laranjeiras do início do século. O futebol era um balé para os olhos dos grã-finos, e a torcida, ah, a torcida era um eufemismo. As donzelas casadouras, em seus vestidos imaculados, torciam, nervosas, as suas luvas de pelica. Deste gesto de fina angústia nasceu o termo que nos define: “torcedor”. Era um ato contido, quase um segredo.
Eis que surge, das entranhas do Morro Mundo Novo, ali colado ao nosso templo, a figura homérica de Chico. Negro, capoeirista, com a força dos que carregam o mundo nas costas. Francisco de Assis, seu nome de batismo, era a antítese daquela plateia silenciosa. Ele não assistia ao jogo; ele o desgustava. Mais: o devorava. Ele o jogava junto, dos degraus da arquibancada.
Os céticos… melhor, os invejosos, em sua pequenez estupenda, sempre tentaram rotular o Fluminense. Mas como, se o nosso primeiro e mais icônico líder de torcida foi justamente este homem? O povo. O povo em sua manifestação mais pura, mais vulcânica. Ali, naquele instante, o verbo “torcer” deixava as luvas das donzelas e encarnava, suado e rouco, num homem só. O clube não o rejeitou. O clube o abraçou — assim como mais tarde abraçaria o “pó de arroz”. Chico, um homem do povo, negro, capoeirista, morador do Morro Mundo Novo era, no início do século passado onde as coisas eram estupidamente diferentes, nada mais nada menos do que a personificação viva e pulsante da alma tricolor.
Ah, que falta me faz o Fluminense. Que falta me faz encontrar com milhares, milhões de Chicos por Toda essa Terra. Está chegando a hora. Vai ser difícil. Mais seis dias e estaremos todos juntos. Torcendo, pulando, gritando e cantando. Cada um de seu jeito, dentro de suas condições. Mas todos levando consigo um pequeno pedaço do gigante legado que esse homem do povo deixou para o nosso povo.
Vistam-se pois, meus amigos, a fissura está prestes a ser curada. Que cada bandeira desfraldada seja a prova material da nossa saudade. Que as armaduras, sejam datadas de toda e qualquer batalha, estejam presentes e reluzentes. Que os instrumentos não marquem uma marcha ou cântico, mas a própria pulsação do reencontro. Tragam o pó de arroz! Em abundância! Que a sua nuvem branca cegue os céticos e anuncie ao mundo mais uma vez: o Fluminense é de todos!
Por fim, que fique claro e que não reste a menor dúvida: o Fluminense não volta para jogar. Ele volta para ocupar o vácuo que deixou na alma da cidade e no coração de seu povo.
ST
Washington de Assis
